A dentista Evelyn Santos, de 28 anos, uma das pessoas que morreram por febre maculosa e estiveram em uma festa com 3,5 mil pessoas na Fazenda Santa Margarida, em Campinas (SP), enviou mensagens à família pelo Whatsapp quando os sintomas se agravaram e ela decidiu procurar atendimento.
Campinas confirmou existir um surto de febre maculosa na fazenda. Ela está fechada por 30 dias, com eventos suspensos. Os responsáveis pelo espaço apresentaram um plano de ação de combate à doença e farão obras no estacionamento, local apontado como provável para o contágio. Quatro pessoas tiveram as mortes confirmadas pela infecção e uma está internada. Há, ainda, pelo menos 16 casos suspeitos de pacientes que estiveram em eventos no local.
Evelyn, além de dentista, também foi professora de odontologia em uma faculdade. Nas mensagens enviadas à família, ela disse que estava no médico porque havia se sentido muito mal e teve febre de 40ºC.
Evelyn morava em Hortolândia, fez exames em um hospital particular de Campinas e chegou a passar por três unidades de saúde. A princípio, ela recebeu o diagnóstico de dengue.
O noivo da vítima, o empresário Marcelo Borges, acredita que houve falha na assistência à jovem. “O médico disse que, pelos sintomas, poderia ser muitas coisas”, afirmou.
Eles iriam viajar para o Chile para comemorar o Dia dos Namorados, mas ela morreu no dia 8 de junho. A possibilidade de febre maculosa, segundo ele, só foi pensada pela família depois que houve a notícia sobre outras duas pessoas que morreram após a Feijoada do Rosa na fazenda.
A infectologista Raquel Stucchi afirmou que o diagnóstico da febre maculosa é difícil de fazer por conta dos sintomas realmente serem semelhantes ao de outras doenças. Segundo ela, o tratamento com antibiótico para a febre maculosa é eficaz quando aplicado no tempo certo.
As quatro pessoas que estiveram na Feijoada do Rosa e morreram depois de terem contraído febre maculosa são:
a professora e dentista Evelyn Santos, de 28 anos;
a dentista Mariana Giordano, de 36 anos;
o namorado da dentista, o empresário e piloto de Fórmula C300 Douglas Costa, de 42 anos;
a estudante Erissa Nicole Santana, de 16 anos, que esteve na festa para acompanhar o trabalho do pai.
Campinas contabiliza, ainda, um caso suspeito relacionados ao surto na fazenda. A modelo Rosangela Davelli, de 40 anos, que foi à Feijoada do Rosa e também está internada. Ela disse que só procurou ajuda após amigos alertarem sobre o surto e teve muito medo de morrer. Leia o relato.
Uma mulher de 38 anos, que esteve no local para um show do cantor Seu Jorge, no dia 3 de junho, e está hospitalizada, teve o diagnóstico confirmado para a doença.
Nas outras cidades do estado, há dois casos suspeitos em Jundiaí (SP), dois em Itupeva (SP), cinco em Hortolândia (SP), um em Americana (SP), um em Mogi Guaçu (SP) e quatro em Santa Isabel (SP). Todos de pessoas que foram aos eventos na Fazenda Santa Margarida.
Adolescente acompanhou o pai em trabalho
Outra vítima da febre maculosa que foi à Feijoada do Rosa é a adolescente Erissa Nicole Santana, de 16 anos. Ela foi acompanhar o pai no trabalho. O homem tem uma empresa que presta serviços de ambulâncias e brigadistas e foi até o ambulatório do local para levar uma bolsa de material com medicações, e, como de costume, a esposa e a filha o acompanharam.
Os três permaneceram 30 minutos no local e foram embora. Aimprensa também teve acesso a um vídeo de Erissa na escola, no qual ela faz uma apresentação, coincidentemente, sobre “doenças invisíveis”. A mãe da vítima também conversou com exclusividade com a reportagem.
A cada dia, a cada plantonista que trocava, cada médico que vinha sempre vinha com uma notícia muito mais devastadora. Assim, evoluindo para uma piora o tempo todo. Minha filha, ela faleceu irreconhecível, irreconhecível. Porque essa doença destrói muito rápido o corpo do ser humano”, desabafou Simone Santana
Raquel Stuchi também explicou como funciona a ação da doença no corpo. “Conforme o tempo vai passando, é como se a inflamação aumentasse muito e daí a chance de sucesso no tratamento ela vai diminuindo. Eu tenho muita inflamação, eu passo a ter uma facilidade para ter hemorragia na pele, intestino, pulmão, cabeça. Então tudo isso vai dificultando o sucesso no tratamento”, finalizou.
68 mortes desde 2007
A série histórica de dados de febre maculosa da Prefeitura de Campinas compreende o intervalo de 2007 a 2022. Durante o período, o ano com índices maiores foi 2019, com 15 casos e dez mortes.
Em 2023, já são seis óbitos, quatro relacionados ao surto na fazenda e outros dois que já haviam sido confirmados pela Secretaria de Saúde anteriormente. Veja abaixo os detalhes da doença na cidade nos últimos 16 anos.
Considerando as 68 mortes e 133 casos em 16 anos, a taxa de letalidade em Campinas foi de 51,1%. O número de mortes da febre maculosa tem variáveis, sendo que, de acordo com a Vigilância da metrópole, a principal delas é o tratamento precoce. Se o paciente procurar atendimento em até 72 horas depois que começou os sintomar, a chance de cura é alta.
O índice de casos e mortes em Campinas aumenta se considerar que a cidade é referência de atendimento para outros municípios da região. No entanto, neste caso, a conta entra para o município onde o paciente mora.
Região endêmica
Por conta das características territoriais, a região de Campinas é considerada endêmica para a febre maculosa. De acordo com a diretora da Vigilância em Saúde, Andrea Von Zuben, é equivalente ao que é a malária na Amazônia.
“Campinas é uma área endêmica pelas características do local. Tem muita área de mata e historicamente, no Brasil, é onde mais tem a doença”, afirmou.
A prefeitura tem mapeada pelo menos 12 áreas de risco, entre elas a região da Fazenda Santa Margarida, em Joaquim Egídio.
▶️ O que é a febre maculosa? Segundo o Ministério da Saúde, “a febre maculosa é uma doença infecciosa, febril aguda e de gravidade variável”, ou seja: há formas leves e formas graves, “com elevada taxa de letalidade”. Os sintomas podem ser facilmente confundidos com os de outras doenças que causam febre alta.
▶️ O que causa a doença? A doença é causada, no Brasil, por duas bactérias do gênero Rickettsia, e a transmissão ocorre por picada de carrapato. A Rickettsia rickettsii causa a versão grave e é encontrada no norte do Paraná e no Sudeste. A Rickettsia parkeri leva a quadros menos severos e é encontrada em áreas da Mata Atlântica no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, na Bahia e no Ceará.
▶️ Quais carrapatos transmitem? No país, são os carrapatos do gênero Amblyomma, principalmente aquele conhecido como carrapato estrela. Mas o ministério alerta que qualquer espécie pode transmitir a febre maculosa, inclusive o carrapato do cachorro.
▶️ Dá para transmitir de pessoa para pessoa? Não. A transmissão por contato humano é impossível.
▶️ Quais são os principais sintomas? Febre; dor de cabeça intensa; náuseas e vômitos; diarreia e dor abdominal; dor muscular frequente; inchaço e vermelhidão nas palmas das mãos e sola dos pés; gangrena nos dedos e orelhas; e paralisia dos membros que começa nas pernas e vai subindo até os pulmões, causando problemas respiratórios.
▶️ Mas e as manchas? O Ministério da Saúde alerta que, com a evolução do quadro, “é comum o aparecimento de manchas vermelhas nos pulsos e tornozelos, que não coçam, mas que podem aumentar em direção às palmas das mãos, braços ou solas dos pés”.
▶️ Tem tratamento? Sim, com um antibiótico específico. O paciente deve começar a tomar assim que o médico suspeitar da contaminação por febre maculosa, antes mesmo da confirmação do resultado do exame.

